Coronavírus, Aids e outras emergências de saúde: os erros se repetem

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Quando soube que um ex-namorado era soropositivo, Heliana Moura tinha 27 anos e quase nenhum conhecimento sobre a Aids, doença causada pela infecção do vírus da imunodeficiência humana, o HIV. Imediatamente, buscou ajuda em um posto de saúde e recebeu do médico um pedido para a realização de teste em um laboratório particular. Só em casa foi ler o documento e sentiu o golpe ao notar que, no campo de motivo, o profissional escreveu: promiscuidade. “Naquele instante, eu vi que já estava rotulada”, comenta a assistente social, uma dura lembrança de um fato que ocorreu no início dos anos 90.

Detectada a presença do vírus em seu organismo, Heliana mudou-se de Belo Horizonte para Brasília, fugindo do preconceito que passou a sofrer de pessoas próximas. Anos mais tarde, grávida depois de um episódio em que houve o rompimento de um preservativo durante o ato sexual, foi tratada como uma “transmissora quase intencional da doença” nas primeiras consultas obstétricas.

Quase três décadas depois, ainda que não tão acentuado e moralmente demarcado, um processo estigmatizante, que guarda semelhanças com a história relatada por Heliana, foi vivenciado por Ronaldo¹, 76. Poucos dias depois de seu corpo manifestar sintomas da Covid-19, doença provocada pelo novo coronavírus, o aposentado buscou ajuda médica ao lado da mulher, de 74 anos. A confirmação foi acompanhada de uma conversa dura, em que ele se sentiu responsabilizado por ter sido infectado e culpado pela contaminação de sua esposa – que, cerca de duas semanas depois, entrou nas estatísticas das vítimas mortas pela pandemia.

Mesmo depois de cumprir todas as medidas de isolamento domiciliar, Ronaldo ainda teme sofrer discriminação e ser tratado como um potencial transmissor do vírus e receia insinuações de ter causado a morte de sua companheira. Por isso, só revelou o diagnóstico aos três filhos e aos netos.

Ainda que por motivos e em escala diferentes, as manifestações de preconceito e a estigmatização de grupos sociais são apenas alguns dos paralelos entre o que a pandemia do HIV provocou a partir dos anos 80 e o que o coronavírus vem causando em todo o mundo desde o ano passado. “Ressalvadas as diferenças entre a Aids e a Covid-19 – e existem muitas, tanto na forma de contágio como no desenvolvimento das enfermidades –, é possível traçar alguns paralelos importantes que talvez nos ajudem a pensar a pandemia atual”, situa o Marco Aurélio Prado, professor do Departamento de Psicologia da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal de Minas Gerais (Fafich/UFMG).

Há similaridades mesmo em relação à origem das enfermidades: tanto o HIV quanto o novo coronavírus eram hospedeiros de espécies selvagens antes de passarem a infectar os seres humanos. Também em ambas as situações, são frequentes as teorias conspiratórias de que as doenças teriam sido produzidas em laboratório. A presença de notícias e informações falsas, aliás, também se fez perceber nos dois momentos históricos – embora, agora, a disseminação de material fraudulento tenha sido facilitada com as redes sociais, o que levou a Organização Mundial da Saúde (OMS) a falar em uma “infodemia de desinformação”.

Aprendizado esquecido

Ao olhar para trás, Marco Aurélio Prado lamenta que aprendizados tenham sido apagados e, portanto, repetidos. “Pudemos compreender, com a pandemia da Aids, que a designação dos chamados grupos de riscos, além de vulnerabilizar ainda mais segmentos que já viviam precariamente, também significou não prestar atenção ao fato de que as formas de contágio estavam relacionadas a comportamentos de riscos, e não circunscritas a um grupo apenas”, situa ele, que é coordenador do Núcleo de Direitos Humanos e Cidadania LGBT da federal mineira (Nuh/UFMG).

A associação entre HIV e pessoas pertencentes aos grupos dos “quatro agás” (homossexuais, hemofílicos, heroinômanos e haitianos), explica Prado, perpetuou, além do preconceito, uma falsa sensação de segurança em relação à doença – como se indivíduos fora do grupo estigmatizado estivessem imunes ao contágio.

“Essa classificação em grupos de risco vem sendo repetida agora no contexto da Covid-19 e tem implicado em inúmeros preconceitos com pessoas que podem ser consideradas mais ou menos vulneráveis à doença”, reforça Prado, salientando que o conceito tira de foco os comportamentos de risco.

Membro do comitê de enfrentamento da Covid-19 da Prefeitura de Belo Horizonte, Unaí Tupinambás ratifica as críticas à noção de que apenas determinados segmentos da sociedade estão suscetíveis ao adoecimento. “É um tiro no pé, porque desincentiva a adoção de medidas de prevenção, o que faz com que o vírus se propague”, analisa.

O vírus é o outro

Professor do Departamento de Clínica Médica da Faculdade de Medicina da UFMG, Tupinambás indica que, ao falar em grupos de risco – e não em pessoas em situação de vulnerabilidade –, preconceitos são reforçados em um movimento de “rostificação do inimigo” – algo que pode ser percebido, hoje, na adoção do termo “vírus chinês”, uma manifestação explícita de racismo e xenofobia, semelhante ao que significou a sentença “câncer gay”, uma sensível expressão da homofobia na designação da Aids nos anos 80, diz.

O estudioso lembra ainda que em outras emergências de saúde movimentos semelhantes ocorreram: ao povo judeu, por exemplo, foi atribuída a culpa pela disseminação da peste bubônica – uma das mais devastadora pandemias registrada, tendo resultado na morte de 75 a 200 milhões de pessoas na Europa e na Ásia, principalmente entre os anos de 1347 e 1351. “O problema é sempre o outro, o vírus é o estrangeiro”, diz.

No ensaio Aprendendo com o vírus, publicado em março na edição espanhola do jornal El País, o filósofo Paul Preciado cita um outro episódio semelhante: a epidemia da sífilis, em torno de 1500. “Os ingleses chamavam de ‘a doença francesa’, os franceses diziam que era ‘o mal napolitano’ e os napolitanos que vinham da América: diziam ter sido trazido pelos colonizadores que haviam sido infectados pelos indígenas…”, anota.

Vidas descartáveis

“O fato de existirem aproximações entre esses momentos não está ligado a um elemento da natureza humana. O que ocorre é que esses momentos de crises sanitárias trazem à superfície problemas estruturais não resolvidos de uma sociedade que, apesar de todas as suas mudanças, tem muitas permanências”, pondera Benito Schmidt, professor do Departamento de História da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

As pandemias colocam em evidência como certos segmentos sociais são vistos como descartáveis, defende o docente em referência ao conceito de “necropolítica”. “Em seu início, por muito tempo e com reflexos até hoje, a Aids foi associada a grupos sociais estigmatizados e muito específicos: também a imigrantes haitianos, mas muito associada a homens gays. De certa maneira, isso despreocupou a sociedade, pois aquelas vidas não importavam”, assegura. À época, o republicano Ronald Reagan – do mesmo partido de Donald Trump – governava os Estados Unidos. De base conservadora, ele minimizou a doença, tida, então, como um castigo divino.

Com a Covid-19 não há essa mesma conotação moralista, mas persiste a análise de que a vida de alguns grupos vale menos. “Há uma defesa muito clara, externada por autoridades e por empresários, por exemplo, de que a morte de idosos em razão da pandemia não é um problema, apenas uma fatalidade. Por trás desse pensamento, identifico a ideia de que devem morrer por não serem mais produtivos e, agora, estarem impedindo que a roda da economia volte e girar”, avalia.

Outra escala

Diferenciação fundamental para a análise desses distintos episódios históricos, é importante lembrar que a Aids foi e é uma doença mais estigmatizante que a Covid-19, situa Benito Schmidt. Ainda que relatos como o de Ronaldo deem conta de situações de preconceito, há, por outro lado, histórias daqueles que, curados, são celebrados como possuidores de um passaporte da imunidade. As pessoas soropositivas, ao contrário, seguem discriminadas e vistas como transmissoras do vírus.

Além disso, mesmo que autoridades estimulem práticas xenófobas, não há um elemento tão moralizante na doença respiratória – mesmo em razão de forma de contágio, vista como mais “democrática”, embora mais danosa para as populações que vivem em contexto de vulnerabilidade. A síndrome da imunodeficiência humana, que também foi estigmatizada por líderes políticos e pela própria mídia, por sua vez, é comumente associada a práticas sexuais entendidas por uma parcela da sociedade como desviantes e imorais.

O documentário “Carta para além dos muros”, lançado em 2019 e disponível em plataformas online, entre elas a Netflix, registra, entre outros fatos, como a desinformação sobre o HIV é um problema presente.


Fonte: O Tempo
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