Covid-19: com escassez de vacinas, aumenta pressão por produção na Funed

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Com a tarefa de imunizar 212 milhões de pessoas contra a Covid-19, o Brasil conta apenas com as vacinas fornecidas pelo Instituto Butantan, em São Paulo, e pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), no Rio de Janeiro, a partir de tecnologia estrangeira. Em Minas Gerais, o governo do Estado diz avaliar a Fundação Ezequiel Dias (Funed) como uma possível produtora de imunizantes para a doença desde meados de 2020, mas, na prática, não há qualquer previsão oficial para ela sequer começar o processo.

Como não existe nenhuma vacina nacional na fase de testes em humanos, um eventual imunizante fornecido pela Funed dependeria de parcerias com indústrias estrangeiras. Por ora, a fundação está em diálogo preliminar com a norte-americana Covaxx, cuja vacina contra o coronavírus está na primeira fase das pesquisas em humanos, que não ocorrem no Brasil. Também houve aproximação com a chinesa Sinopharm, mas ela não avançou, segundo o governo do Estado, que não deu mais detalhes sobre o assunto.

Enquanto não existem planos concretos para Minas protagonizar o fornecimento de vacinas e em meio à escassez mundial de insumos, cresce a pressão política para que a Funed e o governo estadual tomem a frente do processo. Na última semana, o Coletivo Lindalva das Graças, formado por ativistas e militantes do PT, lançou uma petição online para pressionar a produção de vacinas na fundação, assinado por quase 12 mil pessoas até agora. “Minas Gerais, por decisão de seu Executivo, segue a trilha caótica que se vê no nível federal de governo, na expectativa de algum milagre que supra a demanda de cobertura vacinal de, pelo menos, 70% de nossa população em 2021. Coisa impossível de ser alcançada nesse quadro mundial de desequilíbrio entre oferta e demanda”, pontua o texto do abaixo-assinado.

Em outro espectro político, o deputado estadual Rafael Martins (PSD) assinou um Projeto de Lei, ainda não votado, para que a produção de vacinas contra a Covid-19 seja financiada pelo Fundo Estadual de Incentivo à Inovação Tecnológica, criado em 2008. O fundo, executado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (Fapemig), recebe recursos do Estado e de eventuais doações privadas. Procurado pela reportagem, o governo do Estado não respondeu até o fechamento desta matéria se seria possível utilizar esses recursos do fundo na produção de vacinas e quanto ele contém atualmente. De 2010 a 2020, a receita total da Funed não abaixou, e sim cresceu mais de dez vezes, indo de R$ 144,4 milhões a R$ 1,5 bilhão, segundo dados do Portal da Transparência. “Precisamos de celeridade. Com a capacidade do quadro técnico da Funed, não podemos deixar para amanhã a produção da vacina. Acho que já estamos atrasados”, conclui o deputado.

Funed não deve ser fornecedora de vacinas contra Covid-19 no curto prazo

O governo estadual continua a afirmar que pretende que haja produção de vacinas na Funed, mas, principalmente, para necessidades futuras, e não para resolver a pandemia no curto prazo. Em entrevista ontem, o secretário de Estado de Saúde, Carlos Eduardo Amaral, disse que é necessário ter cautela. “O planejamento da Funed é extremamente sério, não se faz planejamento no serviço público de forma aleatória, o serviço público têm restrições. Não podemos comprar vacina que não tenha selo da Anvisa, isso não existe. Selo que não tem Anvisa não é remédio, não é medicamento, é apenas uma proposta. Estamos acompanhando as vacinas, temos várias (empresas) que nos procuraram e que nós estamos conversando, mas é necessário que tenha viabilidade”, afirmou.

As complicações do Brasil na produção de vacinas vão além da limitação de opções de fábricas nacionais. Elas também passam pela atual incapacidade em lidar com tecnologias inovadoras, como as empregadas pelas farmacêuticas norte-americanas Pfizer e Moderna, na perspectiva da pesquisadora Ana Paula Fernandes, que atua no CT Vacinas, projeto ligado à Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), à Fiocruz Minas e ao Parque Tecnológico de Belo Horizonte (BH-Tec).

Ela pontua que a própria Funed, única fornecedora pública nacional de vacina contra meningite C ao Ministério da Saúde, não produz o imunizante, somente o envasa. A Funed explica que está no processo de receber transferência tecnológica para produzir a vacina em uma de suas duas fábricas de injetáveis. Já para manufaturar doses contra a Covid-19, a fundação diz que seria necessário fazer adequações no sistema fabril, que só poderão ser esclarecidas após definição de qual seria a tecnologia escolhida para a produção. De acordo com a instituição, equipes técnicas ainda discutem qual seria a mais adequada.

A Coronavac, primeira vacina contra a Covid-19 que foi aplicada no Brasil, chegou ao país por iniciativa do governo do Estado de São Paulo. Fernandes entende que a questão deve ir além das iniciativas políticas: “Não é uma questão de interesse político, é preciso ter visão de futuro e aprender com a experiência. Tem que haver política de Estado, e não de governo. A consequência dessa falta são esses momentos em que a população do país fica vulnerável. Essa é uma questão de segurança nacional”, elabora.

Após negociação com a Funed, testes da UFMG são desenvolvidos no Rio

Além dos diálogos preliminares sobre a vacina, a Funed está envolvida em outros projetos na pandemia. Em junho do último ano, ela negociava com o CT Vacinas, vinculado à UFMG, a produção em escala de um teste sorológico para detecção do coronavírus com tecnologia nacional. No meio do caminho, entraves fizeram com que a produção passasse da fundação mineira à fábrica de Bio-Manguinhos, no Rio de Janeiro, a mesma que produzirá a vacina da AstraZeneca no Brasil, de acordo com o virologista Flávio Fonseca, um dos pesquisadores da Federal mineira.

“Em algum momento entre a parte técnica e a negociação, a coisa não andou. Bio-Manguinhos, que também é da nossa rede da Fiocruz, se colocou à disposição e esse foi um movimento natural”, diz Fonseca. Ele prevê que, nesta quinta-feira (28), cheguem 200 mil unidades do teste a Minas, encomendados pela Secretaria de Estado de Saúde (SES-MG).

Em nota, a Funed afirmou à reportagem que faz parte de um projeto em curso para a produção de uma proteína recombinante utilizada em testes diagnósticos da Covid-19. A fundação diz ter recebido a tecnologia e está transferindo para a escala de produção a fim de que ela seja utilizada na montagem de kits de diagnóstico por meio de parceria.

Em novembro, a Funed anunciou o desenvolvimento de um soro contra a Covid-19 a partir de anticorpos de cavalos. A previsão inicial era finalizar lotes-piloto com cinco mil ampolas para estudos clínicos neste mês, mas a fundação ainda não informa quando exatamente serão finalizados. Por enquanto, diz que o material colhido dos cavalos é promissor e que realiza adequações fabris e aquisição de insumos. Parcerias para a realização de testes em humanos ainda estão em discussão.

O que é feito pela Funed

Criada em 1907, a fundação processa testes de Covid-19, realiza pesquisas científicas e desenvolve medicamentos.

Os últimos contratos da instituição com o Ministério da Saúde preveem:

20 milhões de doses de vacina contra meningite;
5,5 milhões de comprimidos de Talidomida (utilizado contra hanseníase);
5,6 milhões de comprimidos de Entecavir (utilizado contra hepatite B).

A estrutura da Funed, cuja sede fica no bairro Gameleira, na região Oeste de BH, inclui:

5 fábricas;
45 laboratórios;
825 servidores efetivos e 146 terceirizados.

 

Fonte: O Tempo
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