Demanda por internet dispara no país e expõe falhas no serviço

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Com as medidas de isolamento social impostas para o controle da pandemia do coronavírus, a demanda por internet aumentou nas residências, assim como as reclamações dos clientes quanto à qualidade do serviço: em Minas Gerais, as queixas relativas à banda larga fixa subiram 37,7% de março a maio deste ano, em comparação com o mesmo período de 2019. Foram 25.075 registros na Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) nesses três meses de distanciamento, uma média de 272 por dia. Em todo o Brasil, a insatisfação cresceu ainda mais: 41,6%.

Segundo a Anatel, na segunda quinzena de março, quando as pessoas passaram a ficar mais em casa e a usar a internet para trabalhar e estudar remotamente, houve um aumento de 40% a 50% na demanda de tráfego nacional, em relação à primeira semana do mês. Já em março as reclamações de banda larga fixa tiveram alta: foram 7.481 em Minas Gerais, ante 5.812 em fevereiro, uma elevação de 28,7%.

A psicóloga Ludmilla Zago, 43, trabalha em casa normalmente e notou que, desde o início da pandemia, a qualidade da internet caiu. E é justamente neste período que ela mais precisa do serviço, já que todas as consultas dos pacientes passaram a ser realizadas online. “As intermitências na internet começaram logo após o isolamento social. Eu tentei passar a minha internet para fibra, que tem aqui na minha região, a operadora falou que aumentaria a velocidade. Liguei mais de 20 vezes para marcar a vinda do técnico aqui, e a cada momento era um problema diferente”, conta Ludmilla, que chegou, inclusive, a mudar o plano de internet do celular para tentar uma conexão melhor.

A professora Carolina Souto, 26, teve que cancelar as aulas online marcadas para um dia de maio porque a internet da casa dela e do condomínio onde mora parou de funcionar. “Liguei para a operadora, e disseram que era um problema da região e que seria solucionado à noite; ficou o dia inteiro fora do ar. Como estou trabalhando em home office, foi bem complicado”, diz.

O aumento da demanda por internet nesse período trouxe à tona os problemas da rede no Brasil. De acordo com a Anatel, 37% dos municípios do país apresentam velocidade média de internet abaixo de cinco megabits por segundo (Mbps), insuficiente para assistir a filmes, por exemplo. O 4G ainda não chegou a todo o território nacional e, segundo a Anatel, está presente em 4.950 dos 5.570 municípios brasileiros. O leilão do 5G, previsto para o fim deste ano, pode ficar para 2021. A tecnologia de quinta geração pode alcançar velocidade de internet até dez vezes maior do que o atual 4G.

De acordo com o presidente da consultoria Teleco, Eduardo Tude, a velocidade média no Brasil, considerando os planos contratados, é de 45 Mbps. “O que acontece é que, em alguns lugares, principalmente em municípios que não estão conectados com backhaul (rede de transporte) de fibra, a velocidade é mais baixa. Parte dos acessos ainda é por tecnologias mais antigas, como a do cobre, e a velocidade é menor”, afirma. “Com a quarentena, houve um pico muito grande de tráfego, e as operadoras tiveram que sair correndo para aumentar a capacidade e atender essa demanda que não estava planejada”, pontua.

A Anatel informou que tem monitorado as mudanças de consumo por meio de curvas de tráfego registradas nas grandes prestadoras, sistemas de medição de velocidade média e canais de reclamações dos consumidores. A agência e representantes do setor firmaram, em março, um compromisso público para manter o Brasil conectado com qualidade durante a pandemia.

Empresas tentam ampliar velocidade

As empresas estão atentas ao aumento da demanda, segundo o Sindicato Nacional das Empresas de Telefonia e de Serviço Móvel Celular e Pessoal (SindiTelebrasil). Algumas estão até investindo, como é o caso da Oi, que aposta em fibra ótica para aumentar velocidade de banda larga. A empresa declarou que investe R$ 685,7 milhões em Minas Gerais desde 2019, um aumento de 34% em relação ao ano anterior. Segundo a operadora, “grande parte desses investimentos foi aplicada na expansão de sua rede de fibra ótica e na implantação da fibra de alta velocidade”.

Em Minas, a Oi oferece rede de fibra ótica em 18 cidades, onde ativou, no início do mês, um novo serviço de internet por fibra ótica com 400 mega de velocidade de download e 200 mega de velocidade de upload. Atualmente, a companhia tem quase 400 mil quilômetros de rede de transporte de dados instalada.

Procuradas, Claro, Tim e Vivo preferiram se posicionar por meio do SindiTelebrasil. A entidade informou que, desde o início das medidas de isolamento social no país, houve um aumento médio de cerca de 30% no tráfego. Disse ainda que cada operadora faz o monitoramento constante da própria rede e adota as ações que considera necessárias para manter a qualidade da conectividade. O sindicato afirmou, ainda, que “a atuação do setor de telecomunicações é estratégica e fundamental neste momento de reclusão da população e que as empresas necessitam seguir operando para minimizar os impactos na economia do país”.

 

Fonte: O Tempo
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