Dificuldades na entrega de doses e insumos atrasam vacinação contra covid no mundo

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Na corrida mundial pela vacina contra a Covid-19, atrasos na entrega dos imunizantes e dos insumos já são realidade em diversos países e retardam o único processo capaz de gerar a imunidade coletiva contra o coronavírus. Enquanto o contágio avança pelo planeta, laboratórios enfrentam dificuldades logísticas e desafios para escalar a produção.

No Brasil, a dependência da China para a liberação do Ingrediente Farmacêutico Ativo (IFA), insumo necessário para a fabricação das vacinas Coronavac e de Oxford pelo Instituto Butantan e pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e ainda sem data certa para chegar ao país, torna cada vez mais incerta a previsão de vacinação de toda a população, mas especialistas não acreditam que isso ocorra antes de 2022.

A União Europeia tem enfrentado atrasos por parte de diferentes laboratórios. Na última semana, a AstraZeneca informou que as entregas para países europeus da vacina desenvolvida em parceria com a universidade de Oxford serão menores do que o esperado, devido a uma “queda de desempenho” em uma das fábricas. A entrega de vacinas da Pfizer para alguns países do bloco também atrasou.

Já o Brasil dispõe, atualmente, de 12,1 milhões de doses das vacinas de Oxford e Coronavac aprovadas pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para uso emergencial. Para dar continuidade à produção dos imunizantes em território nacional, o país precisa do IFA.

Nesta segunda-feira (25), o presidente Jair Bolsonaro disse nas redes sociais que 5.400 litros do ingrediente para a Coronavac estão “em vias de envio ao Brasil” e devem chegar “nos próximos dias” e que a liberação dos insumos do imunizante de Oxford está “sendo acelerada”. O presidente, no entanto, não informou datas.

“Nós cometemos um erro, todos os países do mundo, deixando os insumos nas mãos de apenas dois países: China e Índia. Nós não produzimos nada de insumos básicos no Brasil. Essa pandemia está acordando o mundo”, afirma o professor Vasco Azevedo, do Departamento de Genética, Ecologia e Evolução do Instituto de Ciências Biológicas da UFMG.

O presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), Juarez Cunha, acredita que, até o final do ano, se houver disponibilidade de vacina e dos insumos necessários, o Brasil consiga vacinar os grupos prioritários previstos no novo Plano Nacional de Operacionalização da Vacinação contra a Covid-19, atualizado na semana passada, que totalizam 77,2 milhões de pessoas.

“Para isso, nós precisamos de quase 160 milhões de doses. É preocupante porque temos visto notícias, nos outros países, de laboratórios que já estão tendo atrasos nas entregas, e esses problemas do IFA já vão atrasar em parte o prosseguimento da campanha no Brasil. Tomara que isso se resolva logo para a gente poder começar a nossa produção nacional, e se imagina que, com isso e mais a possibilidade de que outras vacinas possam ser compradas, se consiga terminar pelo menos essa fase da campanha até o final do ano”, afirma.

“Provavelmente, com o tempo e conseguindo o quantitativo de vacinas, esse grupo vai sendo ampliado pelo Ministério, mas isso provavelmente só para o ano que vem”, completa. Considerando que, até o momento, as doses são destinadas apenas a maiores de 18 anos, outros cerca de 100 milhões de brasileiros ainda teriam que ser imunizados.

Segundo Cunha, experiência e expertise para vacinar grandes populações o Brasil tem — cerca de 300 milhões de vacinas são aplicadas todos os anos no país. O problema, agora, é a falta de doses e, futuramente, a possível falta de insumos.

“Provavelmente no segundo semestre vamos ter dificuldade em conseguir seringa e agulha, porque esse mercado está muito aquecido globalmente, todo o mundo está comprando. Tudo isso vai só aumentar daqui para a frente, não diminuir. Não dá para esquecer que junto com a vacinação de Covid-19, vamos ter campanha da gripe também, temos vacinas de rotina, isso tudo é extra”, diz.

De acordo com Cunha, se o país vacinar os grupos prioritários, já deve haver redução das demandas aos serviços de saúde, devido à proteção individual gerada pelos imunizantes. “Já a imunidade coletiva, que é aquela que a gente consegue com um percentual mais importante da população vacinado, vai demorar um tempo. Mesmo que vacinemos 100% desses grupos definidos como estratégicos pelo Ministério da Saúde, isso dá em torno de 35% da população, então precisamos de percentuais maiores de vacinação da população para conseguir a imunidade coletiva”, conclui.

O presidente da SBIm lembra, no entanto, que a vacina, sozinha, não vai ser a solução da pandemia. “O que é bem definido e a gente sabe que funciona: uso de máscaras, lavagem de mãos, distanciamento social e evitar aglomeração”.

Brasil tem 354 milhões de doses garantidas em 2021

O Brasil tem mais de 354 milhões de doses de vacinas contra a Covid-19 garantidas neste ano, de acordo com o Ministério da Saúde. São 254 milhões de doses da vacina de Oxford, por meio do acordo com a Fiocruz, e 100 milhões da Coronavac, do Instituto Butantan. Há, ainda, um acordo para aquisição de 42,5 milhões de doses por meio da Covax Facility, aliança coordenada pela Organização Mundial da Saúde (OMS). A pasta prevê que a conclusão da imunização da população deve ocorrer em 2022.

“O total de doses previstas para este ano, 354 milhões, corresponde às primeiras e segundas doses, conforme recomendação em bula do fabricante”, afirmou a pasta, em nota. “Cabe destacar que a produção, o recebimento e a distribuição são gradativas e contam com uma logística que necessita de planejamento, para a garantia da chegada das vacinas até os postos de vacinação de forma segura”, acrescentou.

O Ministério da Saúde informou que estima que “no período de doze meses, posterior à fase inicial, concluirá a vacinação da população em geral, o que dependerá, concomitantemente, do quantitativo de imunobiológico disponibilizado para uso”.

Segundo a pasta, o plano de operacionalização de vacinação contra a Covid-19 é dinâmico e poderá ser adaptado. Por isso, podem ocorrer ajustes necessários nas fases de distribuição das vacinas e nas indicações de público-alvo.

 

Fonte: O tempo
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