Escassez de embalagens faz opções de cerveja faltarem em supermercados

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Embora não haja escassez geral, pelo menos há quase duas décadas nunca faltou tanta cerveja nas prateleiras dos supermercados brasileiros. Quem busca a gelada nas gôndolas não deve deixar de encontrá-la, mas, provavelmente, terá menos opções de embalagens e tamanhos. O índice de ruptura do produto, que mede a falta da mercadoria, está em um nível recorde, atingindo patamares superiores ao da época da greve dos caminhoneiros, em 2018, e reflete um problema que se arrasta pela pandemia em diversos setores: a escassez de embalagens.

Habitualmente, o índice de ruptura da cerveja é de até 10% — ou seja, se a pessoa for ao mercado buscando 100 opções do produto, não encontrará dez. Em outubro deste ano, após sucessivas altas durante a pandemia de Covid-19, ela chegou a quase 19%, número que não era visto desde que começou a ser medido pela multinacional de soluções em logística Neogrid, em 2003. Na greve dos caminhoneiros, ele teve um pico entre 12% e 13%, segundo Robson Munhoz, CCO da empresa que monitora 40 mil supermercados brasileiros.

“É muito possível que o consumidor não encontre todas as variações da cerveja em lata ou em vidro. Isso não quer dizer que vá faltar cerveja e que o consumidor deva estocar e comprar como se não houvesse amanhã. Quer dizer que talvez não encontre uma marca ou outra”, diz. Sem citar números, a ruptura é confirmada pelo Sindicato Nacional da Indústria da Cerveja (Sindicerv), que afirma buscar soluções junto a fornecedores.

Em 2019, o Brasil produziu 13,7 bilhões de litros da bebida, estima a Associação Brasileira da Indústria da Cerveja (CervBrasil), e o número deve ser igual ou superior em 2020, na perspectiva do presidente da entidade, Paulo Petroni. O problema logístico, portanto, não seria a produção da bebida, e sim a falta de material para envase, especialmente vidro para garrafas. “Centenas de milhares de pontos são de pequeno porte e, até pelo estoque desse pessoal, é natural que haja alguma falta, mas cerveja sempre tem”, pontua.

Conforme explica o superintendente da Associação Brasileira das Indústrias de Vidro (Abividro), Lucien Belmonte, nos meses iniciais da pandemia no Brasil, entre abril e maio, especialmente os menores produtores de bebidas apressaram-se em vender todo o estoque que tinham. Com o aumento na demanda nos meses seguintes, tornou-se mais difícil encontrar as embalagens, o que se agrava neste momento, às vésperas do verão.

“É quase a situação de tentar encontrar um produto às 18h no shopping na véspera do Natal. Os grandes clientes têm contrato de fornecimento e estão recebendo, mesmo que não sejam todas as garrafas que queria. Mas os menores compravam de atacadistas ou distribuidores e não direto das fábricas”, completa Belmonte.

Ele visualiza que a normalização será possível somente após o verão, mas que o mercado ainda terá desafios, pois a modernização ou expansão do maquinário das fábricas depende do dólar, que está em alta histórica.

Nesse cenário, os fabricantes de lata devoram uma fatia maior do mercado: de 50%, devem passar a responder por 70% das embalagens de cerveja, segundo a Associação Brasileira dos Fabricantes de Latas de Alumínio (Abralatas). Ela atribui a alta à facilidade de armazenar as latas em casa, em um momento no qual bares passaram meses fechados.

Produtores de vinho e cachaça também apontam falta de embalagens

A enóloga da Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (Epamig) Isabela Peregrino explica que os vinhos mais sofisticados, como os produzidos pela estatal e pelos produtores do Sul de Minas, costumam utilizar garrafas importadas do Chile, que quase desapareceram do mercado neste momento. A produção nacional de garrafas para o segmento já é pequena habitualmente, mas costuma ser menor ainda no segundo semestre, quando se volta para as cervejas.

“Há uma falta geral de todos os insumos, como papel para rótulos e papelão para as caixas. Está uma dificuldade enorme com o papelão, pedem 90 dias de prazo para entrega, e antes eram 20”, conta.

A situação se repete no mercado de cachaças artesanais, descreve o diretor presidente da Associação Nacional dos Produtores e integrantes da Cadeia Produtiva
e de Valor da Cachaça de Alambique (Anpaq) José Lopes. “Algumas garrafas aumentaram 20%, 30%, e no final do ano costuma haver aumento. A maior parte dos produtores compraram por qualquer preço, porque têm obrigação de entregar nos pontos de venda”, diz, afirmando ser inevitável repassar a alta ao consumidor.

Pequenos produtores de cervejas artesanais narram aumento no valor das latas também, além dos empecilhos para adquirir garrafas e papelão. Como parte deles não vende para grandes redes de supermercados, mas em bares e restaurantes, a pandemia representou um duplo golpe, de acordo com o diretor financeiro da Associação dos Cervejeiros Artesanais de Minas Gerais (Acerva Mineira) Marcelo Maciel. “Há um aumentozinho bom por unidade, mas absorvemos o custo e não repassamos ao consumidor, o mercado já está difícil e precisamos vender mais’, conclui.

 

Fonte: O Tempo
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