Exploração de bauxita na Serra do Selado causa controvérsias

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Poços de Caldas, MG – Uma área na Serra do Selado, de 20 hectares, com possibilidade de extração de 750 mil toneladas de bauxita pela empresa Companhia Brasileira de Alumínio (CBA), foi assunto da última reunião do Conselho Municipal de Defesa e Conservação do Meio Ambiente (Codema) e tema de debates entre ambientalistas.

A reunião resultou na autorização do prosseguimento do processo de mineração na serra, ficando a votação em sete a quatro a favor da mineradora.

De acordo com o biólogo e professor do Instituto de Ciência e Tecnologia da Universidade Federal de Alfenas, campus Poços, Thales Tréz, a área pretendida é de mata nativa remanescente da Mata Atlântica e de preservação permanente.

O professor entregou uma carta ao Codema, do qual é membro titular, manifestando sua preocupação com o assunto. “Que senso de justiça nos levaria a permitir a perda do equivalente a 20 campos de futebol de mata nativa sabendo que existem alternativas? Há vastas áreas de pasto, eucaliptais, cultivos cansados, onde a importante técnica apresentada pela referida empresa pode até fazer um sentido imediato, uma vez que procura, após a intervenção, “recuperar” a área que sofreu a exploração”, diz ele no texto da carta.

Procurado pela reportagem, o biólogo questiona a escolha do local para a lavra de bauxita.

“Precisamos definir que tipo de mineração queremos em nossa cidade e impedir práticas agressivas e não sustentáveis. Acho lamentável que uma empresa grande como a CBA não possa assumir uma postura mais respeitosa para com o meio ambiente e com a cidade em si. A serra São Domingos é marca de Poços de Caldas, e é muito invasivo este tipo de empreendimento”, pontua ele.

De acordo com Tréz, faltou sensibilidade por parte da empresa e do município e a sociedade precisa pressionar seus representantes para evitar que isso se repita. “É inadmissível que uma empresa derrube uma mata em estágio avançado de regeneração com pelo menos oito espécies ameaçadas que a utilizam, mesmo que de passagem. Que inovem suas práticas, revejam seus conceitos e se atualizem em valores mais sustentáveis. Da parte do município, que trate a legislação ambiental com mais rigor, do contrário estaremos testemunhando a morte lenta e histórica das nossas matas”, finaliza.

Codema

De acordo com a presidente do Codema, a engenheira Cibele Benjamin, o processo de pedido da empresa CBA para minerar a área na serra do selado está acontecendo desde julho deste ano. “Houve uma explanação por parte da empresa sobre o processo, ocasião em que o Conselho deliberou que três membros, um engenheiro ambiental, um engenheiro agrônomo e um biólogo, estudassem a questão com o objetivo de esclarecer os demais membros. Houve outra explanação pelos três membros. Após, outro membro sugeriu a suspensão do processo visando informações complementares”, conta ela.

Diante disso, ainda segundo a presidente, duas situações foram submetidas à votação: suspensão para complementação de informações ou concessão da declaração. “Os estudos cabem ao Estado durante o processo de licenciamento e ao Conselho cabe apenas a informação de conformidade com a legislação municipal em relação ao uso. Mas, mesmo com o presente resultado de autorização do pedido da empresa, a atuação do Codema não se encerrou, ele vai acompanhar o processo junto ao Estado”, expõe ela.

Coletivo

O Coletivo Pólis esteve representado na última reunião do Codema pelo ambientalista Luís António de Freitas Junior.

“Apesar dos votos favoráveis ao prosseguimento do processo apresentado pela CBA, considerei que a votação foi bem equilibrada, se comparada com outras do passado. Mas, questiono: será tão difícil perceber que derrubar uma floresta é incabível? Antes da votação três técnicos fizeram uma bela apresentação sobre o processo de licenciamento e eles foram enfáticos em dizer que o processo apresenta muitas falhas. O Codema é um órgão deliberativo e poderia sim ter encerrado esse processo sem corrermos o risco de ser aprovado em outras instâncias. Por mais falhas que apresente não podemos subestimar a força do poder econômico, que é muito articulado e emplaca quase tudo que almeja”, expõe Freitas Junior.

Ele acrescenta que os três votos contrários do poder público mostram que houve uma evolução no Conselho. “Esses três votos adotaram o princípio da precaução, o que é aconselhável nessas situações. No passado já enfrentamos essas mineradoras e conseguimos barrar alguns absurdos como esse. Hoje sinto que tem mais pessoas atentas a essa questão, a sociedade está mais organizada e o Coletivo Pólis também vai combater essa, que pode se tornar mais uma agressão ao ecossistema”, articula ele.

O ambientalista lembra que ainda não está autorizado o desmatamento. “É apenas o começo dos trâmites”.

CBA

A reportagem também procurou a assessoria da CBA, que informou que tem direitos minerários na região da serra do selado e está com processo de licenciamento ambiental em andamento para minerar em uma das áreas do local. A empresa esclarece que há 20 anos realiza atividades de mineração nessa região, sempre cumprindo todas as exigências da legislação vigente.

Outro ponto levantado pela empresa é que ela está há 76 anos na região de Poços de Caldas, contribuindo com o desenvolvimento econômico do município e preza pelo bom relacionamento com a comunidade local, através da prática constante de diálogo, investimentos em processos de preservação ambiental e desenvolvimento sustentável.

 

Via jornalmantiqueira
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