Médicos e educadores criticam pedido do MP para retorno de escolas particulares

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A recomendação do Ministério Público de Minas Gerais para a Prefeitura de Belo Horizonte liberar os alvarás de funcionamento de escolas particulares é vista com temor por infectologistas e educadores. Médicos apontam que o retorno às aulas no atual estágio da pandemia de Covid-19 na capital aceleraria a taxa de infecção, e especialistas em educação alertam para a necessidade de as redes pública e privada serem tratadas igualmente para evitar o aprofundamento da desigualdade social.

O Sindicato dos Professores do Estado de Minas Gerais (Sinpro-MG) informou que vai discutir o retorno às atividades quando os índices epidemiológicos indicarem a desaceleração da pandemia. “No que diz respeito ao retorno presencial, é uma questão que vamos discutir quando a pandemia permitir. Minas Gerais está na onda vermelha, batendo recorde de mortes, infelizmente. Então, a discussão e a luta agora são por vacina já para todos e todas”, disse a presidente da entidade, Valéria Morato.

Ainda de acordo com Valéria, a vacinação dos professores é imprescindível para o retorno das aulas. “O Sinpro entrou com uma ação judicial para que os professores sejam incluídos no grupo prioritário (no plano de imunização). Muito se diz da educação como essencial. Então, quem faz a educação acontecer precisa ser tratado como essencial também”, afirma.

O Ministério da Saúde não inclui os professores entre os grupos prioritários que vão receber as primeiras doses das vacinas contra o coronavírus.

Para o médico infectologista Leandro Curi, as crianças são vetores do coronavírus, e o retorno às aulas presenciais aumentaria a circulação de pessoas e, consequentemente, a taxa de infecção. “A gente sabe que crianças são fortes transmissores da Covid-19, principalmente porque elas não usam máscaras. E crianças manipulam as outras e não têm os hábitos de higiene muito sacramentados até por causa da idade. Só que elas contaminam. E você tem qeu considerar que o transporte dessa criança, os ônibus, as vans, são locais fechados. E vale lembrar que as crianças são as mais assintomáticas desde o início da pandemia”, explica o especialista.

Leandro Curi ressalta que mesmo os protocolos para a prevenção do coronavírus não são suficientes para evitar a contaminação no ambiente escolar. “Acho que não concordo que, com o atual índice de transmissão que a gente está, com um número de leitos de enfermaria e UTIs tão cheios, seja interessante qualquer medida para aumentar a circulação de vírus”, diz.

Sobre a imunização dos docentes, o médico analisa que é uma medida que auxilia na redução do risco de contágio dentro de sala, mas não elimina por completo esse perigo. “A vacinação não garante, mas auxilia. Por exemplo, em uma sala com 20 alunos, o professor está imune, mas o professor, não. A sala de aula é um local fechado com aerosol, e o ar condicionado tem pouca reciclagem, com pessoas conversando por cinco horas, e isso aumenta a chance de infecção. Então, a imunização dos professores auxilia um pouco, tanto é que isso acontece na vacinação contra a H1N1, mas a gente não está nem perto de vacinar a população toda”, avalia o infectologista.

Para a infectologista do laboratório Hermes Pardini Melissa Valentini, o retorno às aulas deve seguir vários cuidados. “O número de crianças em cada sala de aula deve ser menor, observando o distanciamento, com cuidado especial durante a alimentação, que é o momento mais crítico. E os professores deveriam usar os equipamentos de proteção individual efetivos, que são, por exemplo, as máscaras cirúrgicas em vez das de pano”, avalia a médica.

Desigualdade.  

Educadores apontam que o retorno das aulas na rede privada antes que a rede pública deve aprofundar a desigualdade social. “Se essa decisão for para frente, mais uma vez, infelizmente a educação vai ser protagonista da desigualdade que já existe. Esse distanciamento entre a rede pública e a privada só vai aumentar”, diz a pedagoga Jacqueline Caixeta.

Para a doutora em educação pela UFMG Inês Assunção de Castro Teixeira deve haver diálogo do poder público com o setor privado e o setor público e as duas redes devem retornar no mesmo momento. “O encaminhamento para as duas redes deve ser igualitário, porque nesses 12 meses, as desigualdades que eram abissais ficaram ainda maiores. Tanto é que houve um alto número de ausências no Enem. O pobre, para ir fazer a prova, vai de ônibus, no máximo, de Uber”, diz.

Acima de tudo, Inês entende que a volta às aulas deve ser debatida. “Deve haver diálogo entre as partes. Ouvir grupo de pais, sindicatos. É claro que precisamos resolver isso, porque as crianças estão há praticamente um ano sozinhas. Mesmo as crianças dos setores médios devem estar lotadas de televisão e tecnologias. Principalmente no momento do desenvolvimento da linguagem, a criança precisa do outro. A vida precede a educação, a situação é grave, mas temos que discutir a volta”, conclui.

Fonte: O Tempo
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