Paris vai sediar Gay Games 2018, Brasil quer bater recorde de participantes

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Graças ao primeiro Brasileiro de futebol da comunidade LGBT, comitê verde e amarelo espera conseguir levar 100 atletas à capital parisiense em agosto de 2018.

Paris vai sediar Gay Games 2018, e Brasil quer bater recorde de participantes.

Terra da Liberdade, Igualdade e Fraternidade, Paris vai sediar, de 4 a 12 de agosto de 2018, os X Gay Games. Aberto não só a membros de grupos LGBT, o megaevento vai reunir delegações de 70 países, incluindo o Brasil. A organização espera 15 mil atletas em 500 provas de 36 esportes, olímpicos ou não. Nesse jogo entre os que sonham com a humanidade mais respeitosa diante das diferenças e os que querem o mundo dividido entre “nós” e “eles”, o esporte entra em campo.

Se ainda há um espaço em que se combate preconceitos, este é o do esporte. Por meio dele, inúmeras campanhas de federações internacionais buscam se opor a manifestações de preconceito nas arenas esportivas, o que está na base dos Gay Games-2018. No caso brasileiro, o Comitê Desportivo LGBT tem planos ambiciosos. Sem verbas públicas, pretende mais do que dobrar a média de 30 atletas que tomaram parte em edições anteriores. Para este ano, o objetivo é levar uma centena de desportistas brasileiros, o que pode ser alcançado graças ao crescente interesse pelo futebol. Em novembro último, foi organizada pela primeira vez, no Rio, a Champions Ligay, o Brasileiro Gay de Futebol de Sete.

A partir dessa competição, é possível que sejam formadas três equipes para representar o país no megaevento, o que é permitido pelas regras dos Jogos. O primeiro time assumidamente gay do país se chama BeesCats, do Rio, fundado pelo roteirista carioca André Machado.

– O BeesCats surgiu em maio. Eu sempre jogava peladas com meus amigos heterossexuais em São Paulo, onde passei minha infância. Quando me mudei para o Rio, encontrei vários gays que gostavam de jogar futebol, mas tinham traumas por causa de discriminações. Então, em maio, reunimos 15, depois 30 pessoas, e em um mês já éramos 100 pessoas alugando duas quadras do clube Guanabara, em Botafogo – relata ele.

André e amigos conseguiram organizar várias equipes com atletas assumidamente homossexuais. Daí surgiu a ideia do campeonato, com os campeões Bharbixas (MG) e mais BeesCats, Unicórnios (SP), FuteBoys (SP), CapiVaras (PR), Bravos de Brasília, Alligators (RJ) e Sereios (SC). Segundo André, outros times estão sendo formados em 12 cidades do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Espírito Santo, Bahia e Amazonas e Rio.

– Queremos tornar o esporte o espaço contra o preconceito. Nós do Beescats iremos aos Gay Games, e acredito que possamos levar três times, incluindo uma seleção. Este é o ano zero do futebol gay no país, e num futuro próximo, queremos ver um jovem ser revelado na Ligay, para se tornar profissional. Isso será um divisor de águas – projeta André.

Champions Ligay: toda a alegria do time campeão, o Bharbixas (Foto: divulgação)

Na praia, pioneirismo de Juliana e Carol

Da delegação verde e amarela, poderá fazer parte pelo menos uma atleta que já subiu ao Olimpo: Juliana, do vôlei de praia, bronze olímpico em Londres-2012 e recordista de títulos mundiais, com oito. Ao seu lado, poderá estar alguém que já vem acostumada a atacar sobre a rede do preconceito: Carol Lissarassa, a primeira transexual a já ter disputado um torneio de vôlei de praia no Brasil, a Copa Juliana, em Porto Alegre, em novembro. Carol convidou a amiga para o evento, mas Juliana teme apenas que os Gay Games possam coincidir com alguma etapa dos Circuitos Mundial ou Brasileiro. A multicampeã de 34 anos se sentiu honrada pelo pioneirismo de ter atuado junto a uma transexual na quadra de areia.

– Se eu estiver livre na época (agosto), será uma boa jogar os Gay Games. Será uma causa nobre – diz Juliana, lembrando que a copa que levou seu nome é aberta a pessoas de quaisquer origens.

Gaúcha de Três de Maio, Carol Lissarassa, de 27 anos, começou no vôlei com 12 anos, no colégio, em sua cidade natal. Com 18 anos, porém, se afastou dele, devido à transição entre os sexos. Há três anos, já assumida como mulher, a cabeleireira voltou a jogar, em Chapecó.

– Ter jogado ao lado da Juliana é uma grande conquista, porque sempre fui fã dela. Nós nos tornamos amigas e disputar os Gay Games seria uma forma de representar a comunidade LGBT brasileira – enfatiza ela, que ainda necessita da autorização para usar seu nome social (feminino) e precisa se federar como atleta de vôlei de praia.

A viagem da delegação brasileira a Paris requer um trabalho de engenharia, que vem sendo executado pelo paulista Érico dos Santos, presidente do CD LGBT. Ex-atleta de base do atletismo, nas provas de 100m e 200m, parou de competir em 1995. Ao ouvir falar dos Jogos, se empenhou em criar, em 2008, uma entidade que representasse o país no megaevento.

– Nosso país já participava dos Jogos desde Amsterdam 1996, mas com atletas avulsos. Já com o comitê, a primeira participação foi em Cleveland-2014 – conta Érico.

Juliana e Carol (no ataque), a primeira transexual a disputar um torneio de vôlei de praia no Brasil (Foto: Divulgação)

Reforço de brasileiros que moram na Europa

Apesar da denominação Gay Games, estes também são abertos a portadores de deficiência e a heterossexuais. A abertura será a 4 de agosto, no Stade Jean Bouin, e o encerramento, no dia 11, diante do Hotel de Ville, a prefeitura da capital francesa, futura sede das Olimpíadas de Verão, em 2024. Da programação, farão parte modalidades olímpicas e paralímpicas. No último dia, costuma lotar o parque aquático o “flamingo cor-de-rosa”, show com atletas da natação, nado artístico (antigo nado sincronizado), saltos ornamentais, polo aquático, maratonas aquáticas e saltos ornamentais.

Uma das esperanças de Érico, do CD LGBT, é o fato de que, cada vez mais brasileiros têm ido tentar a vida na Europa.

– Como Paris é central, espero o reforço de quem reside no continente – explica. – Nosso trabalho é buscar patrocínios e de parcerias, além de mobilizar quem possa viajar por meios próprios.

Mobilização parece ser a palavra de ordem. Mesmo sem ter certeza de ir aos Jogos, Juliana acha que o evento é importante para quem luta por dignidade, apesar de rejeitados pela sociedade.

– Cada um tem sua personalidade e precisa ser livre para viver sua escolha – declara a multicampeã. – O esporte tem o poder de reunir todo mundo, não importa cor, religião, classe ou orientação sexual. Todos são iguais perante o esporte.

Gay Games: a apresentação conhecida como flamingo cor-de-rosa (Foto: https://www.paris2018.com/sports/pink-flamingo/)

Via globoesporte
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