PIB traz primeiros impactos da pandemia e desenha encruzilhada ao Brasil

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Pouco a pouco, começa a ficar claro o tamanho do impacto da pandemia do coronavírus sobre a economia brasileira. Apesar de o dado divulgado hoje pelo IBGE ser velho, indica onde estava a economia no início deste ano e o quanto ainda pode piorar, dado que os impactos mais drásticos para a atividade começaram a ser notados somente da segunda metade de março, já no fim do trimestre.

“Víamos um resultado bom de atividade imobiliária, que estava melhorando a confiança. Outro que ia se destacar é petroleo e gás, com produção forte e Petrobras capitalizada. Esses dois, além do agro, iam ser destaques de crescimento e agora os dois primeiros estão com os resultado mais complicados”, diz Sérgio Vale.

O Brasil tem um alto nível de informalidadem com cerca de 38 milhões de trabalhadores. Medidas como o auxílio emergencial de R$ 600 anunciado pelo governo reduzem os impactos da pandemia na economia, mas não totalmente a perda.

“Comércio e serviços empregam metade do PIB com muita informalidade. Com isso não voltando, as pessoas ficam sem renda. A ajuda emergencial é muito aquém da renda que ele teria normalmente”, diz Silvia Matos, coordenadora do Boletim Macro do Ibre/FGV.

Por ser uma economia muito fechada e pouco integrada às cadeias globais de valor, o Brasil sofre um impacto menor que outros países pelo canal de comércio. Além disso, nosso principal parceiro comercial é a China, que já está em um novo estágio de reabertura com uma retomada mais acelerada.

De acordo com o IBRE/FGV, a queda de 1,5% no primeiro trimestre deve acelerar para um patamar entre 10% e 15% no segundo trimestre, com novas quedas trimestrais menores até o ano que vem.

Há uma incerteza generalizada sobre quando haverá uma vacina, por exemplo, se haverá necessidade de novos fechamentos e sobre a retomada de atividades que dependem de aglomeração.

“Serviços não essenciais terão recuperação mais gradativa possível. O exemplo mais dramático é viagem, um setor devastado no momento. O que vai ser do setor de shows, estádio de futebol, cinemas e esse tipo de lazer? A volta é gradual até a gente ter uma solução para a Covid-19”, diz Étore Sanchez, economista-chefe da Ativa Investimentos.

Além disso, o Brasil se destaca mundialmente como um dos países mais afetados pela doença. Mesmo com baixo nível de testagem na comparação global, o país já é um dos novos epicentros da Covid-19 no mundo. É também o segundo lugar mundial em número de casos e sexto lugar em número de mortos, e não há sinais de arrefecimento.

“O choque é comum a todo mundo, mas a gente se destaca pela dificuldade de lidar com a própria pandemia. Os países estão sendo avaliados pela sua capacidade de coordenação. Nossa dificuldade nesse sentido tem impacto sobre o quão perene pode ser esse choque”, diz Silvia.

O agravamento da crise política e da tensão institucional – em momento onde a maior parte dos países vive o efeito de união nacional em momentos de crise conhecido como “rally around the flag” -, faz o país perder atratividade internacional e lança dúvidas sobre as bases da recuperação.

“O investidor avalia se a agenda de reformas, que em princípio poderia continuar no pós-pandemia, tem riscos. Todo mundo vai gastar e aumentar dívida nesse momento faz parte. A questão é: vou usar isso para voltar na trajetória de crescimento anterior?”, completa Silvia.

O clima de tensão também se reflete no câmbio. O real foi a moeda que mais se desvalorizou em comparação ao dólar em 2020: começou o ano cotada a R$ 4,01 e chegou a beirar os R$ 6 neste mês. Um efeito positivo dessa valorização, que poderia ser visto na alta das exportações, que ficam mais baratas a outros países, pode ser difícil de se concretizar pela demanda ainda baixa no exterior.

Diante dos números de hoje, o Goldman Sachs e a corretora Necton já projetam quedas do PIB superiores a 7% em 2020.

“Esperamos que a incerteza econômica, política e de políticas públicas continue alta, o que provavelmente aumentará o fardo econômico e social da pandemia e vai minar a recuperação”, escreve Alberto Ramos, diretor de pesquisas para a América Latina do banco americano.

 

Fonte: Exame
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