Uso de máscara pode levar a casos de Covid-19 mais leves ou assintomáticos

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O uso de máscaras em ambientes públicos é obrigatório em todo o Brasil e, se elas forem utilizadas corretamente, podem ajudar na redução do número de casos graves de Covid-19. Essa é a hipótese lançada por dois pesquisadores norte-americanos no periódico “The New England Journal of Medicine”, referência internacional na área da saúde. Na perspectiva dos autores, os médicos Monica Gandhi e George Rutherford, o uso de máscaras pode estar relacionado à imunidade contra o coronavírus e servir como alternativa para algum nível de imunização até o surgimento de uma vacina eficaz.

Não são as máscara que geram imunidade, mas elas fariam com que a carga viral dispersada pelos doentes e absorvida por pessoas ao redor fosse relativamente menor. Menos quantidade de vírus significaria uma resposta imunológica mais rápida contra a infecção e, consequentemente, sintomas mais amenos, ou mesmo nenhum sintoma. De quebra, o infectado ainda pode desenvolver certa imunidade ao agente nesse processo.

É algo parecido com a “variolização”: para combater a varíola, durante o século 18, o médico e cientista inglês Edward Jenner utilizou material dos machucados de pacientes doentes para contaminar pessoas saudáveis. Elas acabaram desenvolvendo a doença, mas de forma branda — as principais formas de transmissão da varíola são pelo ar e por contato direto. Isso não quer dizer que alguém deva utilizar máscara e deliberadamente ter contato com pacientes da Covid-19, porque ainda não existe nenhuma comprovação científica de que ele de fato terá apenas sintomas brandos.

“O melhor é todo mundo usar a máscara. Qualquer barreira física entre você e o vírus é válida. Ao longo da história, vemos que pessoas com contato com maior carga de vírus têm evolução mais rápida das doenças, como acontece com o HIV, a sífilis e a tuberculose”, pontua o infectologista Unaí Tupinambás.

O artigo no periódico norte-americano cita que, em meados de julho, o Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA (CDC) estimou que a taxa típica de assintomáticos da Covid-19 era de 40%, subindo para 80% em locais com uso universal de máscara. Em um navio argentino, onde houve um surto da doença, mas todos os tripulantes eram obrigados a utilizar máscara, a taxa de assintomáticos ficou em 81%, contra cerca de 20% em casos similares em que o uso da proteção não foi seguido. Uma observação parecida foi realizada em uma fábrica nos EUA, em que 500 pessoas foram infectadas, mas 95% não apresentaram sintomas.

Uma das dúvidas que precisa ser respondida pelos cientistas para esclarecer a relação entre o acessório de segurança e a imunidade é saber qual é a resposta imunológica ao coronavírus gerada por pessoas com sintomas muito leves ou assintomáticas.

“Teoricamente, ao receber uma carga viral mais baixa, você dá oportunidade para a imunidade inata dar conta da infecção. As células que garantem a imunidade duradoura são as B e as T (que coordenam o sistema imunológico). A imunidade inata pode estimular as duas. Mas temos assintomáticos da Covid-19 que produzem anticorpos e sintomáticos que não produzem. Não temos a segurança completa de que todos que tiveram a doença têm anticorpos e estão protegidos”, detalha o infectologista Antonio Bandeira, membro da diretoria da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI).

Para validar se as máscaras podem servir como estratégia de “variolização” os cientistas ainda precisam entender qual é a duração da proteção imunológica contra a Covid-19 em pessoas assintomáticas e verificar se há redução das contaminações em locais com altos níveis de assintomáticos. No Brasil, onde é raro que pessoas sem sintomas sejam testadas, um estudo desse porte se torna mais difícil.

Como saber se a máscara é segura

A única máscara que protege o próprio usuário contra a contaminação pela Covid-19 é a do tipo N95 — que deve ser utilizada apenas por profissionais de saúde e pessoas do grupo de risco da doença, por recomendação da Organização Mundial da Saúde (OMS). Ela também pode ser encontrada nas variações KF94 (tipo sul-coreano) e PFF2 (tipo brasileiro). Diferente do que o visual elaborado pode sugerir, entretanto, as opções com válvula são perigosas: apesar de proteger o usuário, fazem com que ele emita mais aerossóis, aumentando o risco das pessoas ao redor.

Para verificar se as máscaras artesanais oferecem segurança, o pesquisador Vitor Mori, membro do Observatório Covid-19 BR, dá duas dicas. “O mais importante é que ela seja grossa o suficiente. Então, ao colocá-la contra a luz, você não pode ver aqueles pontinhos de luz no tecido. Se assoprar e conseguir apagar uma vela usando a máscara, é porque ela é muito fina”, sugere.

O pesquisador pontua, ainda, que a máscara deve ficar justa no rosto, porque aerossóis podem escapar pelas brechas sob o queixo ou acima das bochechas, por exemplo. Por isso, os modelos que são amarrados na nuca podem ser mais seguros do que os que ficam apoiados nas orelhas, diz Mori. Pelo mesmo motivo, as máscaras 3D, com costura no meio, também devem ser evitadas.

As máscaras mais seguras contra a Covid-19

Pesquisadores da Universidade de Duke, nos EUA, avaliaram como diferentes tipos de máscara contêm a dispersão de partículas durante a fala. Voluntários utilizaram diferentes acessórios e disseram a mesma frase, direcionando a fala para dentro de uma caixa. Nessa caixa, um laser tornava visíveis as gotículas expelidas (mas não os aerossóis), que foram registadas por uma câmera.

Fonte: O Tempo
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