Voluntários dos testes com CoronaVac contam ao EM como tem sido a experiência

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Primeiro voluntário de Belo Horizonte a receber a CoronaVac, imunizante contra a Covid-19 que está sendo desenvolvido pelo laboratório chinês Sinovac Biotech em parceria com o Instituto Butantã, de São Paulo, o médico André Ribeiro diz que, em nenhum momento, sentiu medo de participar do projeto. Motivos não faltaram para um sentimento de temor. Embora a vacina tenha demonstrado bom grau de segurança até o momento, os protocolos do Centro de Pesquisa e Desenvolvimento de Fármacos da UFMG (CPDF/UFMG), responsável pela condução dos testes na capital, são claros ao destacar que o produto é novo e seus efeitos colaterais ainda estão sendo estudados.

André, no entanto, confia na seriedade da pesquisa. “O rigor científico é grande. Estou ciente de que assumi um risco, mas ele é calculado. Meu maior receio nesse processo é me esquecer de que ainda sou vulnerável ao coronavírus. Nem por um instante posso ceder à tentação de pensar que, porque recebi a injeção, estou imunizado. Preciso seguir com os mesmos cuidados para não me infectar, pois ainda não temos vacinas, temos candidatas”, explica o médico.

Nove semanas após o início dos testes em Minas Gerais, André e outros dois profissionais da área da saúde contaram ao Estado de Minas por que decidiram aderir ao estudo e o que sentem ao participar deste momento histórico. Os relatos têm em comum a paixão deles pela ciência e a disposição de lutar pela vida de seus pacientes.

Há outra razão essencial para que os voluntários não baixem a guarda. Os ensaios clínicos da CoronaVac, que estão na terceira fase – aquela de comprovação de eficácia – são do tipo duplo-cego randomizado. De acordo com artigos científicos publicados sobre a experiência, isso significa que os participantes são divididos em dois grupos: um toma o medicamento, enquanto o outro recebe uma substância inócua, sem efeitos no organismo, para que os cientistas possam comparar os resultados. Só ao fim da pesquisa, os voluntários ficarão sabendo se foram, de fato, imunizados.

Em BH, segundo a UFMG, cerca de 600 profissionais de saúde já receberam as doses, que começaram a ser distribuídas em 31 de julho no Centro de Saúde Jardim Montanhês, Região Noroeste de BH. São duas, ao todo, com intervalo de 14 dias. Todos os voluntários aceitos na testagem atuam diretamente no combate à pandemia, têm entre 18 e 59 anos, nunca contraíram o Sars-CoV-2 (vírus da Covid-19), não apresentam doenças crônicas, nem fazem uso de medicamentos contínuos. Eles serão acompanhados até dezembro, num processo que inclui consultas médicas regulares, realização constante de exames de sangue, além de testes de detecção da Covid-19.

O protocolo inclui ainda o preenchimento de diários. Os voluntários os descrevem como uma espécie de relatório, no qual registram dados a exemplo da temperatura corporal – aferida todos os dias, logo pela manhã – bem como eventuais sintomas incomuns, como febre, dores de cabeça, tosse, entre outros, que possam indicar reações adversas, ou mesmo a presença do novo coronavírus. Os cadernos são entregues a cada 14 dias ao CPDF/UFMG, que também faz acompanhamentos semanais por telefone dos voluntários. A cada encontro com a equipe de pesquisadores, os participantes recebem R$ 20, a título de reembolso por gastos com alimentação e deslocamento.

“Medicina é baseada em ciência e arte”

André Ribeiro, 30 anos, médico generalista

“Fui o primeiro voluntário a me apresentar em 31 de julho no Centro de Saúde Jardim Montanhês, onde trabalho, para receber a vacina. Fiz a inscrição tão logo fiquei sabendo do recrutamento. Confesso que, na hora de receber a injeção, senti um friozinho na barriga, mas medo, não. Tenho confiança na pesquisa, que é muito rigorosa. Sei que o risco existe, mas ele é calculado. E eu aceitei porque, como todo médico, sou movido por um pouco de altruísmo, desejo de gerar bem à população.

Há também o fato de eu gostar muito de pesquisa. Estou estudando para a residência em neurocirurgia, e já publiquei vários artigos. Medicina, pra mim, é baseada em ciência e arte. A ciência é porque o conhecimento médico tem que ser baseado em evidências científicas; e a arte, porque o profissional precisa se importar verdadeiramente com as pessoas e saber lidar com elas. Tem que ter paixão no que faz. Os testes da CoronaVac, de certa forma me permitem viver essas duas faces do médico de maneira única.

Eu me sinto bem esperançoso quanto ao sucesso dessa vacina. Tudo indica que vai dar tudo certo. E, se não der, a gente segue em frente e continua tentando. Nessa pandemia, reli o Grande Sertão: Veredas, escrito pelo Guimarães Rosa, que também era médico. O Riobaldo, protagonista do filme, tem uma fala da qual gosto muito: “O correr da vida embrulha tudo. A vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem”. Acho que é isso: o momento exige coragem. Principalmente dos profissionais de saúde”.

“Uma tentativa de reduzir tanto sofrimento”

Lyvia Marília Dias, 30 anos, médica generalista

Atuo no Centro de Saúde Mantiqueira, na Região de Venda Nova. Ontem mesmo soube que paciente meu – um idoso com comorbidades – morreu vítima da Covid-19. Como médica, sinto impotência toda vez que recebo notícias como essa. Minha decisão de participar dos testes é, em parte, uma tentativa de fazer alguma coisa, de contribuir de alguma maneira para reduzir tanto sofrimento.

Quando contei para as pessoas do meu convívio que ia ser voluntária, algumas me perguntaram se eu estava louca, se eu não tinha medo de ser “cobaia”. Confesso que, quando soube das reações adversas apresentadas pelas pessoas que tomaram a vacina de Oxford, fiquei com um pouco de receio mas, depois, passou.

Como não sei se recebi a vacina mesmo ou o placebo (preparação neutra, sem efeitos farmacológicos), mantenho o mesmo rigor com os cuidados de higiene: uso a máscara N95 em todos os atendimentos, lavo as mãos com frequência, limpo meus instrumentos médicos e, ao chegar em casa de qualquer lugar, tiro toda a roupa e tomo banho. De toda modo, estou bastante otimista. Tudo indica que a vacina, além de segura, será eficaz.”

“É por eles (amigos mortos) e pelos meus pacientes”

Bruno Damasceno de Faria, 31 anos, médico psiquiatra

“Sou médico psiquiatra e trabalho na Prefeitura de Belo Horizonte. Recebi uma dose da CoronaVac e, em breve, vou avaliar com a equipe da UFMG a aplicação da segunda. Cheguei a apresentar algumas reações ao ser vacinado – um cansaço muscular leve, dores brandas pelo corpo e diarreia. Entretanto, não sei se posso relacionar isso à vacina. É preciso verificar.

Por causa desse momento de extrema polarização política, comentei com pouquíssimas pessoas que ia aderir ao estudo. Cheguei a ouvir profissionais de saúde reprovando colegas por participarem da pesquisa porque ela envolve a China, o que é uma ignorância absurda. Optei, então, pela discrição, para evitar a polêmica.

Considero minha participação na pesquisa como um dever de médico. Outra coisa que motivou foi o fato de que várias pessoas próximas a mim tiveram sua vida ceifada pela Covid-19. Seis amigos meus morreram – gente de quem fui padrinho de casamento, professores que me deram aula na faculdade, muita gente de que gostava muito. É por ele e pelos meus pacientes que me ofereci como voluntário. Sei que, como todo experimento, este envolve riscos, embora sejam mínimos. Mas eu não tenho medo, encaro essa situação com serenidade. Pretendo ter filhos e netos. No futuro, acho que vou ter orgulho de contar para eles essa história – na qual meu papel, de maneira alguma, é de herói, mas de alguém que cumpriu a sua obrigação”.

 

Fonte: Estado de Minas
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